A Sala da Ina

Educação de Infância

Pedagogia Waldorf: sem avaliação e sem chumbos

em Janeiro 3, 2011
 

Rudolf Steiner criou as escolas Waldorf em 1919, na Alemanha, dando origem a uma metodologia sem avaliação de desempenho, sem repetição de anos, que respeita as competências exclusivas de cada aluno.

“Nas escolas Waldorf não existe a desonrosa avaliação do desempenho infantil ou juvenil, segundo uma notação numérica importada do mundo industrial. Na realidade, crianças em idade escolar não têm nada a desempenhar nessa fase da vida.” Raul Guerreiro, um dos primeiros professores portugueses formados segundo a pedagogia Waldorf, membro do Conselho Nacional Parental das Escolas Waldorf na Alemanha, explica que o mais importante é facilitar a descoberta da vida e remover “empecilhos” nos percursos individuais das crianças, para que assim expressem competências inatas e únicas.

A pedagogia Waldorf, criada pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner, em 1919, na Alemanha, defende a introdução de duas línguas estrangeiras no primeiro ano escolar, a presença da arte nas salas, trabalhos manuais, valorização de experiências sensoriais, contacto com a natureza. Um método que estimula o acto de brincar e espicaça a imaginação a partir de objectos simples. Um caminho que é feito mais no campo sensorial do que cognitivo. Raul Guerreiro refere que os alunos Waldorf têm um capital de criatividade e independência que, apesar de temporariamente desfasado da escola regular, revela-se mais tarde “como precioso para a sua moderna afirmação como indivíduo livre e socialmente útil, ao longo do seu destino profissional”.

Não existe paralelismo entre a pedagogia Waldorf e o currículo oficial. “Na educação Waldorf foi abolido o escandaloso método de repetição de anos. A humilhante prática do ?chumbar’ é considerada como frontalmente contrária à condição humana, pois nenhuma biografia pode ser interrompida, em estilo colapso, a fim de se repetir a vida e remeter uma criança, tal qual um produto de segunda escolha, de volta à ?linha de produção'”, continua o responsável.

Não há um director e docentes hierarquicamente no patamar inferior. Nas escolas Waldorf há uma direcção colectiva composta por todos os professores e educadores da instituição. Habitualmente é constituído um parlamento escolar, um órgão consultivo, no qual se discutem as questões ligadas à vida da escola. É uma entidade jurídica independente. Rudolf Steiner preconizava que os professores tinham a missão de criar o ambiente mais adequado no qual a criança se educa a si própria. As palavras são suas: “O nosso dever é portanto criar o ambiente mais propício possível para que a criança possa educar-se junto a nós, da maneira que ela necessita segundo o seu destino interior”.

Raul Guerreiro fala num “fantasma opressor do moderno mundo escolar”. Num território onde, na sua opinião, as crianças são “preparadas estratégica e intelectualmente para ir mais tarde ocupar postos de trabalho”. O que não acontece na pedagogia Waldorf em que, sustenta, há um “profundo respeito pelos destinos individuais de cada família e das competências exclusivas demonstradas por cada aluno”. E os pais têm um papel activo e determinante, trabalhando com os professores para a “realização democrática de uma auto-administração”. “Via da regra, há uma participação entusiasta e total da ala familiar para o ciclo de vida Waldorf completo, de tal modo que não se coloca a questão de uma súbita desistência dos pais, ou de uma crise de adaptação forçada do aluno ao sistema de ensino regular não Waldorf”, refere.

Ao ritmo da natureza
As escolas Waldorf espalhadas pelo mundo oferecem 12 anos de escolaridade, o que não acontece em Portugal, mais um ano opcional para quem pretende concorrer ao ensino superior. “O currículo Waldorf de abrangência total orienta-se por critérios antropológico-educacionais próprios, que são um alargamento e aprofundamento radical dos anteriores conhecimentos que regiam o mundo escolar. Não se trata de qualquer currículo adaptado ou modificado a partir dos velhos esquemas tradicionais implantados por uma elite académica, ou pelos imperativos de ordem funcional ou trabalhista da actual sociedade de consumo”, sublinha Raul Guerreiro.

Neste momento, há mais de mil escolas Waldorf e perto de dois mil jardins-de-infância. Em Portugal, não chegam aos dedos de uma mão e a pedagogia alternativa começou a ser implementada em 1984. Dois jardins-de-infância em Alfragide e em Sintra, uma escola de educação especial em Seia e a Escola Livre do Algarve, no concelho de Vila do Bispo, regem-se por esta metodologia. São escolas que garantem que não são contrárias ao mundo moderno ou à tecnologia, mas que fazem questão de conhecer em detalhe “as fases correctas da psique infantil”, no sentido de uma “saudável introdução gradual das crianças às realidades dos nossos tempos”.

No jardim-de-infância São Jorge, em Alfragide, crianças dos 4 aos 6 anos, brincam com objectos poucos elaborados. Brincam livremente, brincam com pedras e conchas, por exemplo. Vinte vagas, 20 crianças. Paula Martinez, responsável pela instituição, assegura que as crianças estão na escola como se estivessem em casa. “As actividades são muito simples e não há notas”, adianta.

Os adultos proporcionam o ambiente, respeitam o ritmo de cada criança e a criatividade é um aspecto que acaba por surgir naturalmente. “Os educadores preparam o ambiente para estimular essa criatividade, para que as crianças sejam mais livres e mais criativas.” Paula Martinez garante que os mais pequenos integram-se “muito bem” quando passam para o ensino regular. “São crianças que estão muito bem com a vida e que brincam. Estão preparadas para ir para a escola e não gastaram as energias para as quais não tinham capacidade plena”, sublinha.

Respeito pelo ritmo de cada um. O processo de desenvolvimento é mais valorizado do que o processo educativo. Não há planos curriculares. A Pé de Romã – Associação para Iniciativas Waldorf, em Sintra, permeia as brincadeiras com actividades artísticas e trabalhos manuais. Dezassete crianças, dos 2 aos 6 anos, fabricam pão, praticam jardinagem, ouvem contos, manipulam marionetas. Os brinquedos são simples, feitos de materiais naturais como madeira, cortiça ou conchas. No exterior, no jardim, penduram-se cordas nas árvores, constroem-se baloiços. Os pais das crianças estão presentes nas festas de aniversário e em várias iniciativas marcadas no calendário.

“Desenvolvemos actividades mais ligadas ao ritmo da natureza ou actividades domésticas”, adianta Catarina Melo, da Pé de Romã. E os pais são chamados a participar em diversos momentos. Trabalham na horta, constroem estruturas no jardim. “Precisamos de mãos que nos ajudem.” O plano Waldorf passa por dar às crianças as verdadeiras bases para toda a vida. “Se não forem dadas no momento certo, na primeira infância, é mais difícil de serem recuperadas.” As crianças sentem dificuldades de adaptação quando passam para o 1.º ciclo? Depende da criança, do professor, da própria fase de adaptação. Uma coisa é certa, os alunos da Pedagogia Waldorf não entram no ensino primário a fazerem cálculos ou a escreverem frases inteiras. Entram “com outras ferramentas e outros recursos”. Instrumentos e competências para a vida.

In www.educare.pt:

 http://www.educare.pt/educare/Detail.aspx?contentid=7803CEABFBFE3686E0400A0AB8002553&opsel=1&schema=1CD970AB0836334EB627B1FF128684C3&channelid=1EE474ED3B3E054C8DCFD48A24FF0E1B


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